Sobre as voltas que a vida dá

31/08/2015

meu-netbook

A vida é um eterno ciclo, sempre acreditei nisso. E cada vez que chegamos novamente ao mesmo ponto, já estamos completamente diferentes do que éramos na volta anterior.

Estou neste momento na biblioteca da faculdade. Em outro momento eu estaria pelos corredores com um livro na mão, ou no laboratório que costumo ficar com amigos e professores. Mas decidi fazer uma experiência e aproveitar o tempo para me organizar.

Acordei inspirada a colocar minha vida no eixo novamente. Não que as coisas estejam confusas, muito pelo contrário. Tudo parece fluir tão bem que me sinto feliz e grata com tudo o que tem acontecido ultimamente. Mas a sensação que tenho é que estou deixando a vida me levar, e alguns projetos e planos que tinha feito acabaram ficando em segundo plano. Sabe quando percebemos que precisamos fazer aquele declutter na papelada, reorganizar os arquivos do computador e arrumar o guarda-roupas? Pois é, me encontro assim no momento.

A ideia que tive foi a de resgatar meu antigo netbook e trazer pra faculdade. Com o wifi da biblioteca, poderia adiantar algumas coisas, organizar outras e tentar escrever um pouco enquanto escutava uma música boa. Sei que vivemos em uma época em que a obsolescência programada virou quase uma regra. Compramos coisas já com prazo de validade pré-estabelecidas, e por este e outros motivos, tinha deixado meu netbook empoeirar-se num canto da casa, abandonado.

Ao ligá-lo, aqui já na biblioteca, não imaginaria o tanto de experiências que eu reviveria. Ele é lento, está um pouco sujinho, mas nada disso importa pra mim. Apenas precisava de algo portátil que me permitisse escrever fluentemente, mas não foi apenas isso que aconteceu.

Logo ao iniciar o sistema, memórias boas surgiram em minha mente. Foi nele que digitei as primeiras palavras do blog Vida Minimalista, antes de se transformar em Vida Conectada. Lembranças de uma época em que eu queria, a todo custo, mudar minha vida pra melhor. Uma época em que queria me desfazer de objetos, de sentimentos, de tudo que não me fazia bem, em busca de descobrir do que eu realmente gostava, o que me fazia feliz. Uma época boa, em que aprendi demais sobre a vida. Em que pesquisei, tive novas experiências relacionadas ao desapego, e tantas outras alegrias. Todas estas memórias vieram como em um furacão, mas não parou por aí.

Programas à espera de atualizações. Arquivos sem sincronia, Evernote e Dropbox em uma versão antiga. E ao olhar os últimos arquivos, me deparei com fotos, vídeos e músicas, que naquela época faziam parte do meu dia-a-dia e que agora já não significavam mais nada. Como podemos mudar tanto?

Procurei por aquela pasta de músicas próprias para Reiki, e para minha surpresa, ela estava ali, aguardando pelo play. E enquanto escuto o álbum Mind, Body and Soul series, de Llewellyn, lembro-me da época em que o deixava em modo replay, tocando ad infinitum enquanto fazia meus primeiros destralhamentos no quarto. Enquanto ponderava se deveria ou não doar aquele ursinho de pelúcia, ou aquela blusa antiga que não cabia mais em mim. E hoje percebo que tudo que deixei pra trás, tudo que desapeguei, nunca me causou arrependimento, muito pelo contrário, só me deixou feliz em saber que teria outra serventia, que outras pessoas poderiam usar aquilo que eu acumulava no fundo do armário. E não foram apenas de objetos que me lembrei, mas também de sentimentos, certezas e tudo que eu já havia contruído. Ou melhor, o que haviam contruído por mim.

Quando desapegamos, doamos e nos abrimos para algo novo, vamos eliminando camadas ao nosso redor. E só conseguimos nos autoconhecer de verdade ao nos despirmos de tudo aquilo que foi construído. Desde pequenos somos bombardeados diariamente com crenças limitantes e senso-comuns disfarçados de conhecimento, mas que apenas nos enrijecem, nos fazem encarar nossas próprias vidas a partir de experiências vividas por outras pessoas. Quanto me desconstruí até agora!

E o melhor de tudo, é que sei que ainda estou caminhando em uma trilha que não sei onde vai terminar. Aquele papo de focar numa meta e seguir em frente, totalmente obstinado, talvez não seja tão bom assim. Quão belo e prazeroso é observar as borboletas do caminho!

E é olhando pra trás que pude, hoje, perceber o quanto cresci, amadureci e mudei desde a última vez que desliguei este pequeno netbook. Também tropecei várias vezes, é claro, mas o que aprenderíamos caso a trilha não tivesse curvas nem troncos de árvores pelo caminho? Será que eu seria a mesma? Certamente não.

E hoje sou grata ao meu pequeno netbook, que me proporcionou tantos momentos de reflexão. Meu plano era apenas sentar-me aqui, quieta na biblioteca, e produzir algo que estivesse pendente. Mas sei que nada é por acaso, e essa enxurrada de sentimentos e sensações mudaram o meu dia me fazendo enxergar que preciso, novamente, minimalizar. É hora de dar uma sacudida e deixar a poeira se desprender do meu corpo.

Novamente me encontro no mesmo ponto em que me encontrava há alguns anos, mas não sou mais a mesma pessoa. E estou pronta para, a cada dia, desapegar das minhas certezas e aprender cada vez mais.

Me perdoem o texto longo, mas é culpa do meu pequeno netbook. Talvez eu o traga mais vezes para a biblioteca silenciosa da faculdade. Talvez eu ainda tenha muito a aprender com este pequeno computador, ou quem sabe, comigo mesma.

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5 comentários leave one →

  1. Acho q vc me descreveu! To me sentindo “deixando a vida me levar”.
    Há 1 ano e meio eu comecei um projeto que sabia que seria de longo prazo e já trabalhei muito neste, mas as coisas não estão fluidas como antes. Não penso em desistir, mas está muito difícil continuar.
    Acho que uma revisão de metas e detralhamento da papelada acumulada pode ajudar a reviver esse objetivo como se ele fosse novinho em folha 🙂
    Amei o texto, mesmo longo passou tão rapidinho…
    Bjo

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  2. Bella - Contos da Borboleta

    Aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaai como nao amar????? Lindo demais esse seu post e agora la vou eu mais uma vez tentar colocar minha vida em ordem. Mas dessa vez vou ser minimalista e retirar um verbo: vou la colocar minha vida em ordem! kkkkkk Beijo!

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  3. Fernanda Rocha

    Lindo post…palavras que nos fazem refletir. Como podemos mudar tanto em pouco tempo e engraçado que quando estamos vivendo um momento ruim não vemos o tempo passar. Eu estou desapegando direto de coisas e principalmente livros. Estou sem pena passando para frente tudo o que não uso ou tenho demais. Estou mais focada em ser feliz do que em ter várias coisas que gosto ao meu redor….essas coisas por mais que eu goste não trarão felicidade para mim mas sim trará eu me sentir realizada e correndo atrás dos meus sonhos, nem que eles mudem repentinamente de caminho quando eu menos espero, rsrsrsrrs. Viver é estranho…

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  4. Lara

    Muito lindo seu texto, me emocionei.

    Obrigada!

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  5. rose

    Oi Camile amo o seu blog , do jeito que ele é….gostaria de saber se você tem vontade de trabalhar como médica veterinária, ou se vai se entregar a uma nova profissão. Escreva um post, talvez sobre multi talentos, funções e ou dificuldades para decidir…estou nesta fase. Abraços.

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