Livros

Resenha: O Oceano no Fim do Caminho

07/06/2014

Oceano no fim do caminho (resenha) | Camile Carvalho #camilecarvalho

Não vou negar, este é um daqueles livros que não sabemos por onde começar e nem como fazer uma resenha à altura. Sempre achei muito mais fácil falar sobre o que não gosto, pois consigo pontuar cada item durante o percurso da leitura que me desagradou. No entanto, O Oceano no Fim do Caminho é justamente o oposto, superando todas as minhas expectativas e me deixando completamente sem chão.

Depois de ler algumas indicações de que o livro valeria muito à pena, resolvi dar uma olhada apenas na introdução para saber se era o tipo de história que me agradava. Quão grande foi minha surpresa que passei aproximadamente três horas com os olhos grudados no iPad sem conseguir fazer uma pausa, o lendo de uma só vez pela madrugada.

O Oceano no Fim do Caminho (Editora Intrínseca, R$ 24,90) é uma obra de Neil Gaiman e a primeira que li do autor. Conta a história de um homem de meia idade que retorna à cidade em que cresceu, na Inglaterra, mais precisamente quando tinha seus sete anos, e relembra de diversos acontecimentos que marcaram para sempre a sua vida.

Após o suicídio misterioso de um homem dentro do carro de seu pai e o aparecimento repentino de moedas por toda parte, o narrador – em primeira pessoa e de nome desconhecido – conhece uma menina um pouco mais velha, de onze anos, que mora com a mãe e a avó, todas muito misteriosas.

Vivendo algumas experiências insólitas, o menino passa a ser testemunha de vários segredos os quais não tem com quem compartilhar, já que sua nova babá também é uma peça-chave deste mistério. A narrativa feita pelo próprio personagem nos deixa em dúvida se tudo aquilo realmente está ocorrendo ou se faz parte de sua imaginação.

A questão é que durante alguns acontecimentos e diálogos um tanto irreais, o leitor se depara com várias possibilidades de reflexões profundas sobre diversos aspectos da existência. Fazendo um paralelo com arquétipos religiosos, é possível observar traços de elementos pagãos, budistas, védicos e principalmente científicos, relacionados à física e astronomia.

“Soube o que era o Ovo – onde o universo se iniciou, ao som de vozes incriadas cantando no vácuo – e eu soube onde estava a Rosa – a dobra peculiar de espaço no espaço em dimensões como origami e que florescem como orquídeas estranhas, e que marcaria a última época boa antes do consequente fim de tudo e o próximo Big Bang, que não seria, agora eu sabia, nem nada do gênero.”

A narrativa é tão leve e fluida que parece estarmos sobrevoando aquele ambiente etéreo, sombrio e onírico da estranha fazenda encontrada no ponto onde a estrada termina. O oceano representado no livro também é carregado de sentidos, nos fazendo pensar ao mesmo tempo que o que nos é apresentado não é real, mas que há uma possibilidade de ser.

Oceano no fim do caminho (resenha) | Camile Carvalho #camilecarvalho

É extremamente difícil tentar explicar em palavras o que Neil Gaiman conseguiu provocar com sua obra e certamente é um livro que pretendo reler em breve, para que seja possível identificar mais elementos interessantes ocultos em seu texto. Indico a todos que desejem ter uma experiência diferente com um livro, não apenas uma leitura superficial. É sem dúvidas aquele tipo de obra que nos faz pensar sem conseguir compreender direito o porquê.

“Eu me perguntei, como frequentemente me perguntava quando tinha aquela idade, quem eu era e o que exatamente estava olhando para o rosto no espelho. Se o rosto para o qual eu olhava não era eu, e sabia que não era, porque eu ainda seria eu não importava o que acontecesse ao meu rosto, então o que eu era? E o que estava olhando?”

GAIMAN, Neil. O oceano no fim do caminho. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2013.

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1 comentário leave one →

  1. Viviane

    Acompanhado o trabalho de Neil Gaiman desde a década de 90, quando comecei a ler Sandman, série de quadrinhos escrita por ele para a DC. Desde então, coleciono suas obras em inglês, preferencialmente, pois MUITO da obra dele se perde na tradução, por melhor que seja a tradução, e algumas poucas coisas compro em português.
    Essas referências que encontrastes são extremamentes comuns nas obras dele: deuses de todas mitologias, criaturas fantásticas, a mistura entre mito, ficção, sonho e realidade; fatos e meias-verdades… E sim, ele usa muita metáfora, gosta de incentivar reflexões, e é uma pessoa muito interessante também de se acompanhar pela internet.
    Recomendo ler Deuses Americanos e a série de quadrinhos de Sandman, onde as referências mitológicas e LITERÁRIAS são várias, e vários famosos personagens e figuras reais da literatura aparecem com freqüência.

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