Minimalismo

O minimalismo e a quantidade

05/07/2015

O minimalismo e a quantidade |Camile Carvalho  #camilecarvalho

Quando conheci o conceito do minimalismo, não havia muitas pessoas escrevendo sobre isso, nem em blogs nem em livros. Blogs como Zen Habits, Be More With Less, Unclutterer entre outros eram algumas de minhas fontes de inspiração sobre o assunto, e quanto mais eu os lia, mais olhava ao meu redor e me sentia sufocada com tantos pertences que havia acumulado há anos.

No meu armário, além de muitas roupas, também se encontravam jogos da minha adolescência, pastas de recordações, caixas de brinquedos – um dia meus filhos vão brincar com isso – e objetos que eu sequer sabia que estavam ali. Era tudo em grande quantidade, que se alguém me perguntasse o que eu tinha guardado, eu não saberia responder de forma objetiva.

Na minha escrivaninha – que mal fechava a gaveta – papeis pulavam por toda parte. Cadernos antigos, anotações, xerox de aulas que eu não tinha mais e muitas, mas muitas canetas de todos os tipos.

Se percorrêssemos os olhos pela estante da sala, mal conseguiríamos encontrar um CD ou DVD específico tamanha era a bagunça, provocada também, claro, pelo excesso de itens.

Meu ponto de partida foi quando, depois de consumir bastante informação sobre minimalismo em blogs estrangeiros, ler alguns livros sobre budismo – que por sinal, recomendo a todos que querem aprender sobre o desapego – e participar de algumas listas de email sobre organização e GTD, houve a tragédia das enchentes na Região Serrana aqui no Rio de Janeiro.

Sei que já contei esta história diversas vezes, mas é sempre bom relembrar. Por mais que leiamos sobre algo, nos interessemos por determinado assunto, às vezes precisamos de algo que nos dê um empurrão, e infelizmente foi uma tragédia como esta que me fez repensar se havia mesmo a necessidade de manter guardado tudo o que eu tinha acumulado por anos. Foi então que comecei, sem dó nem apego, a esvaziar meu guarda-roupas.

Depois do primeiro declutter, não consegui mais parar. Eu queria reduzir ao mínimo meus pertences, em busca de uma nova vida mesmo, como um recomeço. A sensação de ter o controle sobre minha vida me motivou a me desfazer de tudo o que não fazia mais sentido manter. Roupas, livros, artigos de papelaria, brinquedos, CDs e DVDs… quanto menos sobrasse melhor, e números, nesta época, significavam muito pra mim.

Qual seria o número ideal de peças de roupas? E de livros? Quantos pares de meia eu deveria ter?

Busquei respostas em blogs e me animava ao encontrar projetos minimalistas de pessoas que viviam com 100 objetos. Mas pra minha tristeza, após contar minhas roupas, eu via claramente que nunca conseguiria me encaixar neste modelo de vida. Isso significava que eu precisaria me esforçar mais para ser digna de ganhar o rótulo minimalista, como um prêmio em plaquinha a ser colocada na parede do meu quarto.

Algo estava errado. Eu  jamais conseguiria ter um número x de objetos. Mas eu queria ser minimalista. Queria desfrutar dos benefícios que uma vida menos acumuladora me proporcionaria. E foi ao longo dos meses, dos anos, que aprendi algumas coisas em relação ao minimalismo:

1. Minimalismo não é um rótulo

Eu não preciso sair por aí com uma faixa na testa dizendo que sou minimalista. Nem tampouco preciso seguir padrões pré-estabelecidos para fazer parte de um grupinho. Isso não é um clube, é nossa vida individual.

2. Não viver em caixinhas

Se eu sou minimalista, LOGO, devo agir de tal e tal forma, pensar de tal e tal maneira etc. Não, eu não preciso. Claro que uma reflexão leva a outra, uma atitude pode estar relacionada a outra, mas não precisamos adotar um bloco de estereótipos para nos considerarmos fazendo parte de algo.

Um exemplo? Pessoas minimalistas vivem em casas quase sem móveis, num ambiente com cores claras, móveis modernos, têm sobre a mesa apenas um computador, uma caneta e blá blá blá. Não! Esqueçam isso. Vocês podem pensar o minimalismo e manter suas almofadas coloridas indianas sobre o sofá retrô e manter sua parede da sala pintada de azul turquesa. Acredite!

3. Não precisamos competir

Tenho percebido que alguns minimalistas parecem competir em relação a quantidade de roupas, itens, livros etc., mas a transformação pessoal deve vir de dentro, não por um motivo externo. Ninguém precisa se comparar a ninguém, o processo de autoconhecimento e desapego deve ser pessoal e por motivações internas e não ligadas ao ego.

4. Quantidade não é importante

Qualidade sim. Qualidade de vida, qualidade do que decidimos manter em nossas vidas. Qualidade das amizades, dos livros, enfim, números pouco importam. O que importa mesmo é se você vai sentar-se em sua casa, respirar fundo, olhar ao redor e se sentir feliz, pleno e grato por estar em um ambiente agradável com coisas que te fazem bem, e não em um ambiente cheio de tralhas acumuladas que só servem para ocupar espaço e não significam nada.

5. Não precisamos nos desfazer do que amamos

Se você ama livros, mas quer adotar o minimalismo como princípio de vida, qual o problema em manter sua biblioteca pessoal? Nenhum problema. Esteja cercado daquilo que você ama. Se sua paixão é aquela coleção de carrinhos sobre a prateleira, não há problema algum em mantê-la. A questão em foco é desapegar daquilo que não faz mais sentido em suas vidas. Sabe aquelas roupas que não cabem mais? Aqueles sapatos que te apertam e você não usa? Aqueles livros infantis que você tem guardado numa caixa sobre o guarda-roupa há anos? Desapegue. Mas nunca se sinta culpado em manter o que você realmente gosta.

Escrevi este post pra tentar explicar a quem está conhecendo o conceito minimalista agora, numa tentativa de mostrar que você não precisa sair de um extremo diretamente ao outro. Você não precisa viver com pouco, mas com o suficiente. Você não precisa abandonar o que ama para se enquadrar em uma caixinha rotulada. Abandone apenas o que não precisa estar com você. Objetos, sentimentos, tudo o que não fará falta ou está te prejudicando. O resultado será mais espaço para coisas boas entrarem em sua vida. Sim, coisas boas, e jamais um sentimento de tristeza ao forçar algo que você não é.

Esvazie suas gavetas, limpe seu ambiente. Sente-se com os olhos fechados e respire fundo. Ainda não se sente feliz no seu lar? Recomece o processo. Só você saberá o ponto de equilíbrio, o caminho do meio. Tente ouvir aquela voz que vem de dentro. Não busque externamente, em caixinhas e rótulos, mas procure dentro de você sua própria essência.

imagem: Pixabay

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17 comentários leave one →

  1. Eu precisava tanto desse texto! Estou acompanhando algumas blogueiras que tentam reduzir seus guarda-roupas ao máximo e fico pensando comigo mesma: “pra que?” É claro que isso não vai dar certo (pelo menos, não por muito tempo). E, normalmente, são pessoas com outros armários cheios de tralhas e, principalmente, o coração e a mente cheios de coisas que não tem mais utilidade. Acho que antes de qualquer coisa, qualquer atitude externa, precisamos estar com a mente, o coração, o espírito, todos livres.

    Seu texto foi direto pros meus favoritos! Alguns estavam precisando desse toque 😉
    Abraços

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  2. Fernanda Luz

    Adorei o texto. Minimalismo tem haver com não acumular coisas que não usamos mais ou não queremos mais, assim eu entendo. Estou aos poucos dia a dia também reduzindo o número de coisas que tenho, fiz até uma planilha com controle de algumas coisas… é ir aos poucos tirando os excessos, e isso é pela vida inteira. Nada da radicalismos…apenas viver sem excessos…

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  3. Danielle

    Você é uma querida!
    Amo seu blog. Esse texto clareou muitas coisas na minha cabeça. Eu estava ficando paranóica. Tava tentando me enquadrar em números. Achava que realmente para ser minimalista tinha que ter no máximo x roupas e x sapatos. Mas não é bem assim. Eu estava confusa, e esse texto me ajudou a refletir.
    Obrigada pela dedicação.

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  4. Yuri

    Adorei o post, Camile. Minimalismo não é rótulo, não é bandeira, não é movimento social. É pura filosofia de vida, sem teorias, fórmulas e complicações!

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  5. Maravilhoso esse post, Camile! Realmente, é preciso compreender a essência do minimalismo e aí aplica-la ao nosso dia a dia e as nossas necessidades. Somos todos diferentes, cada um vive de uma forma, não dá pra padronizar coisas que são diferentes!

    Adorei a reflexão! Obrigada pela partilha! :*

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  6. Vinícius

    Excelente texto!!!
    É realmente dificil encontrar esse equilíbrio… Quando comecei o processo também queria me desfazer de tudo, principalmente papéis rsrs

    É isso aí, a resposta vem do nosso interior!

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  7. Minimalismo para mim, é se desfazer de tudo aquilo que lhe rouba energia. Simples assim !

    Amigos que compartilham tristeza,

    Contas atrasadas,

    Promessas não cumpridas,

    Coisas que vc odeia fazer e fica adiando,

    Saber aceitar certas coisas e situações,( sabe aquele emprego que vc insiste em permanecer nele, mesmo não gostando ?)

    E por fim o perdão… A gente fala muito em coisas ” materiais ” mas saber perdoar é minimalismo…o fato de vc conseguir se livrar de ira, raiva, ódio, rancor…

    Não adianta fazer yoga e não cumprimentar o porteiro.

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  8. Carolina

    Oi!
    Acompanho seu blog já há um tempo, mas nunca deixei um comentário.
    Estou pra escrever um post sobre minimalismo e, claro, corri aqui pra me ajudar a organizar as ideias. Qual não foi minha surpresa quando vi que o post praticamente já foi escrito!!!
    Ainda assim escreverei e com certeza usarei o seu como referência (com os devidos créditos, claro”).
    Beijo 😉

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  9. Jess

    perfeito Camile! Eu confesso que eu estava esperando você escrever sobre isso sabia? finalmente o minimalismo caiu no gosto popular dos blogs, e eu acho muito bacana de verdade, mas também penso que devemos ter cuidado com alguns conceitos e regras que mais limitam do que ajudam a gente se desenvolver.

    Eu busco no minimalismo a referência para minha vida e criação. mas não é algo da noite para o dia. Eu tenho me moldado a partir disso. é um processo, conflituoso e cheio de contradições. Muito complexo para cair em métodos ou números. Por isso que fiquei com grande pé atrás com o livro da Marie Kondo, e com alguns conceitos que andam circulando pela internet acerca de um armário perfeito. Porque quando falamos de algo limitado por um número (seja ele qual for), já acho impositivo demais. E muito provavelmente fadado ao fracasso. Assim como tudo que é brusco e extremo demais.

    obrigada por nos alertar sobre isso.

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  10. Ka Porto

    Perfeito, como todos os textos que já li aqui!
    Você é uma inspiração para mim, Camile. Seus posts têm sido uma luz, pois estou conhecendo minimalismo agora e você me faz perceber que é muito mais simples do que dizem por aí. Você é demais (por isso devorei esse blog em tão pouco tempo hahahah)!

    Beijos

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  11. Patricia Perez

    Que ótimo texto!
    A idéia me agrada muito, estou começando a ler sobre. Viver com o que deixa a gente feliz. Com o necessário, sem tralhas, é uma limpeza na alma!
    Obrigada

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  12. Aline

    Procurando sites sobre minimalismo, me deparei com o seu. Amando tudo por aqui. Com certeza voltarei aqui sempre.
    Obrigada por fazer esse cantinho.
    Beijos

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  13. Dany

    Hi!
    Two months ago I started reading about minimalism and decided to rethink the value some of my possessions had in my life. But as I read about minimalism I also felt a bit frustrated because there was no way I could downsize my stuff and only own 100 items or so. What you said is completely true: there is a bit of competition between some minimalists. That doesn’t feel right for me and I did exactly what you said. Instead of focusing on a number of items or on a specific decluttering method or even on a specific way to keep capsule wardrobes, I decided to do things my own way and find my own definition of minimalism, which comes right to the point you said: keep what you cherish, get rid of what you don’t, even if that means getting rid of just a handful of items.
    Thank you for this post! It reinforced my views on minimalism and I really liked that you shared this with the internet community 😀
    Good luck!
    Dany

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  14. Manuella Firminy

    Que lindo!

    Eu estou num momento que quero desapegar de muitas coisas e só deixar as coisas que me fazem bem (pois é, acabei de ler A mágica da arrumação) e eu estava na dúvida se isso me torna minimalista ou não. Sei lá, talvez eu já seja, porque tento sempre viver com o suficiente.

    Adorei a mensagem que você passou!

    Beijos.
    Visite o blog Coisas do Tempo e seja feliz ♥

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  15. Anne

    Adorei o texto! É realmente bem esclarecedor sobre o que é ser minimalista. As pessoas precisam aprender antes de tudo o equilíbrio 🙂

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  16. Que post esclarecedor!!!

    Muito obrigada ajudou horrores :*

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