Minimalismo

O minimalismo e o descarte (não) consciente

16/10/2016

O minimalismo e o descarte (não) consciente • Leve por aí por Camile Carvalho

Faz tempo que eu estava ensaiando escrever este artigo e hoje resolvi colocar em palavras algo que por muito tempo eu estava sentindo mas não sabia bem como explicar. Vamos falar sobre minimalismo e o destralhe?

Quando conheci o minimalismo, por volta de 2011 e abri meu primeiro blog sobre o assunto, achei incrível o conceito de declutter (destralhe) e comecei a transformar minha vida a partir do desapego dos meus bens materiais. Eu ainda tinha brinquedos guardados da minha época da infância, roupas que não usava há uns 10 anos, objetos que eu nem sabia que ainda tinha guardado e muita, mas muita papelada em pastas escondidas pela casa.

Meu processo não foi fácil – e acredito que o de ninguém seja – mas aos poucos fui conseguindo me desapegar de coisas superficiais até chegar ao destralhe mais profundo, que incluíam minhas memórias (cartas, objetos com valor sentimental) e emoções (rancores, amizades tóxicas etc.). No entanto, durante o processo sempre abordei muito o assunto usando o termo tralha para me referir àquilo que não me servia mais. E aí é onde mora um possível problema.

A tralha (clutter)

Quando nos referimos aos objetos que não queremos mais como tralha (clutter, em inglês, por isso o termo de-clutter), podemos fazer um juízo de que aquilo é um lixo. Desvalorizamos o que não queremos e o destinamos a descarte, o que pode ser um tanto irresponsável quando se cai no linguajar comum e não se explica a importância daquilo que queremos nos desfazer.

Se um dia compramos alguma peça de roupa ou objeto de decoração, é claro que aquilo estava sendo importante para nós naquele momento. Usamos, aproveitamos, colocamos nossa energia, mas por diversos motivos acabamos deixando de lado aquela camisa, aquele sapato, aquela papelada e mudamos nosso foco a algo novo que esteja tendo utilidade no momento. Aquilo que deixamos de lado fica, portanto, com uma energia estagnada, mas isso não significa que devemos tratá-lo como um lixo.

Quando separamos roupas para doar a alguém que precise, também não estamos doando um lixo. Veja bem, a cultura do descarte, do efêmero, do líquido está presente até quando estamos nos desapegando e promovendo uma boa ação. Não estou dizendo que não devemos passar adiante aquilo que não nos serve mais, muito pelo contrário. Nem que devemos excluir o termo tralha do vocabulário. O foco aqui está no sentimento com que lidamos com tais peças.

Gratidão, sempre!

A gratidão pelo que nos serviu e nos acompanhou por um tempo é essencial. Se não queremos mais aquilo, que possamos cuidar bem do item e dar-lhe um destino mais digno que não seja o lixo, ou o menosprezo. Estamos colocando nossa energia ali e transmitindo a quem vai recebê-lo.

Separar sacolas e sacolas de lixos aleatórios que tiramos da nossa casa e simplesmente jogar no buraco da lixeira também não é uma atitude legal. O lixo está fora da nossa casa, mas não do nosso planeta. Tudo que compramos é de nossa responsabilidade, assim como seu destino final. Portanto, um alerta muito importante a quem está começando a destralhar a casa é que dê um destino digno àquilo que pode ser útil a alguém e um destino correto e consciente àquilo que não tem mais uso. Reciclar o máximo que pudermos é a melhor pedida.

Agora, há algo ainda mais importante nessa onda de destralhe que está mudando a vida de muitas pessoas: a compra consciente.

Compra consciente

De nada adianta doarmos 50 peças de roupas se na semana seguinte estamos em busca de promoções no shopping. O ciclo precisa ser rompido em algum momento, e o ideal é que seja na hora da compra.

Você realmente precisa daquilo? É de qualidade? Vai durar por quantos anos? Vou precisar substituí-lo em breve? O que estamos colocando pra dentro de nossa casa novamente? Ou melhor, o que você está comprando vai pra um futuro destralhe? Estas são algumas perguntas que devemos nos fazer durante a compra. Porque não adianta esvaziarmos nossa casa se em breve estaremos gastando esforço, energia e dinheiro para nos entulharmos novamente de compras impulsivas.

Que possamos refletir sobre o teor que damos ao nosso destralhe. Que possamos ter a consciência de que não existe jogar lixo fora. Que as roupas que não nos servem mais não são objetos de desdém. E tenhamos a consciência de que este círculo vicioso pode ser freado momento antes de passarmos o nosso cartão no shopping.

:: imagem: Pixabay

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9 comentários leave one →

  1. Excelente!
    Concordo 100%. Descartes consciente e compras por necessidade.
    Bj
    Paula

    http://www.blogchegadebagunca.com.br

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  2. Fernanda

    Obrigada pelo post! Você está certíssima!

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  3. Juliana Caldas

    Excepcional. Acredito que menos é mais. E o bolso agradece e o planeta também.
    Beijos e abraços.

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  4. MILA

    Tenho encontrado por aqui algumas respostas e sincronias sobre as minhas reflexões. Estou a dois meses lendo bastante sobre minimalismo (simples e pouco). Doando aquilo que já não me serve mais. Tinha 150 peças no meu guarda-roupa. em 2 meses estou com 100. E na semana passada tive esse momento. me vi comprando mais umas 6 peças, foi quando me toquei, opa….. não é isso…. preciso em algum momento romper esse ciclo…. COMPRA/USA/NÃO GOSTA/ DOA/COMPRA.
    Muito bom ter lido sobre exatamente isso, por aqui.
    Bjs
    Mila

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  5. silvia

    Gostei muito do que você escreveu! Super útil . Muito obrigada Camile!!!

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