O declutter físico e o desapego emocional

15/02/2016

Declutter e desapego emocional | Camile Carvalho | Vida Minimalista

Hoje fiz mais um declutter. Mas não, não mexi nas minhas roupas, nem na papelada. resolvi ir mais fundo.

Abri o maleiro do meu guarda-roupas, aquele mesmo que eu já havia feito um super declutter há alguns anos e contei aqui no blog. Naquela época, eu tinha muitas memórias, brinquedos da infância, todo meu material da primeira faculdade (Medicina Veterinária) e muita, muita tralha a ser analisada. Foi um processo difícil, de olhar cada objeto em minhas mãos e lidar com memórias, algumas boas, outras nem tanto.

Consegui organizar umas caixas, deixar todas aquelas memórias bem guardadinhas, para um dia, quem sabe, abri-las caso precisasse. Mas não precisei.

Hoje decidi recomeçar meu desapego tanto físico quanto emocional, e tirei cada uma dessas caixas. As coloquei no chão do quarto, e entre poeiras e memórias, fui abrindo uma a uma. O resultado foi impressionante.

Em cada uma das caixas, um pouco do meu passado, da minha personalidade, como se eu quisesse armazenar um registro de quem fui. Como se guardando aqueles objetos, eu pudesse provar a alguém que vivenciei aquilo, que eu sou aquilo que estava ali, armazenado.

Em uma das caixas eu guardava minhas memórias da Medicina Veterinária. Como alguns já sabem, eu sou formada em Medicina Veterinária desde 2007 e caminhei em direção às tecnologias de reprodução de animais de grande porte. Isso, traduzindo, significa que eu inseminava e fazia transferências de embriões, além de acompanhar exposições de Mangalarga Marchador e leilões.

Ali, naquela caixa, estavam também algumas matérias da faculdade, anotações de provas que eu havia guardado e catálogos de leilão. Esta foi uma parte de mim, que hoje vejo que não é mais. E foi só remexendo nessas memórias que me dei conta de que aquelas lembranças – antes felizes – hoje me trazem um sentimento de estranhamento com a Camile que sou hoje. Vou explicar o porquê.

Desde criança sou completamente apaixonada por cavalos. Não sei por qual influência, ou talvez por ser meu animal totem, mas meu sonho sempre foi trabalhar com eles. Montar no pêlo e sair galopando pelos campos, sem hora pra voltar. Aquela sensação de liberdade, de poder, e tudo o mais que um cavalo significava para mim. Fiz equitação e hipismo e, não satisfeita, não tinha outra opção para mim a não ser cursar Medicina Veterinária. Passei pra Biologia, pra Medicina, mas foi a Veterinária que escolhi.

Declutter e desapego emocional | Camile Carvalho | Vida Minimalista

Foram 6 anos de estudos, e de dedicação aos cavalos. No final do curso, eu já estava bem entrosada com os professores e com muitos fazendeiros, sendo constantemente chamada pra fazer parte das equipes sempre que havia uma cirurgia ou uma exposição. Foi a melhor época que vivi, pois ali me sentia realizada. Os semestres passaram e eu estava cada vez mais dentro de um universo um tanto fechado, de trabalhar com animais de grande porte, fazer cirurgias, castrações, descornas, inseminações artificiais e transferências de embriões. Até que – não me recordo como – uma ficha caiu:

“Eu amo animais. Eu amo cavalos. E tudo o que estou vivendo, colaborando, não condiz com esse amor e respeito que sinto por eles.”

Animais de produção – assim são chamados. E a cada dia me sentia mais infeliz por ter escolhido uma profissão que não estava completamente alinhada aos meus princípios de vida: o ahimsa (não-violência), o respeito e libertação animal. Muito pelo contrário, eu os fazia cada vez mais produtos de um sistema no qual o dinheiro era o mais importante. E foi quando rompi de vez com a Medicina Veterinária, aceitando um emprego de editora de vídeo da Rede Record. Sim. Um giro total na minha vida.

Não tive medo de mudar do Rio de Janeiro pra São Paulo, de morar com pessoas que não conhecia nem de ter que enfrentar determinados problemas longe da minha família. Eu queria mudar, e foi depois de um ano trabalhando no meio das telecomunicações, que decidi ingressar na minha segunda graduação: Comunicação Social.

Digo isso pra passar a mensagem de que nunca é tarde para fazer uma grande mudança em suas vidas. Mas agora retornarei ao tema da minha organização do dia. Calma, vocês verão que tudo tem uma ligação.

Enquanto mexia naquelas memórias da Medicina Veterinária, peguei os catálogos de exposições, de leilões, mexi no material de transferência de embrião que ainda tinha guardado. Uma emoção antes presa surgiu em mim, como uma catarse, e chorei. Minha caixa de boas memórias da Veterinária, não passavam de lembranças não muito agradáveis, de como eu estava em um caminho totalmente afastado dos meus princípios. Lembrei dos bois que eu havia selecionado pro abate. Lembrei da égua que caiu do penhasco e o fazendeiro só esbravejava que tinha perdido sei lá quantos mil. Lembrei do Búfalo que peguei no pasto e coloquei no caminhão, pra ser abatido. Quem era eu, afinal, naquela época?

Apenas três coisas pude fazer: pedir perdão por ter contribuído com algo que hoje não concordo, me perdoar (sim, porque isso também é extremamente importante) e agradecer, por ter percebido o quanto mudei nestes últimos anos. Como uma técnica Ho’oponopono (Sinto muito, me perdoe, eu te amo, obrigado).

2007 – era este o ano estampado na maioria das minhas lembranças e, quase 10 anos depois, me encontro no chão do meu quarto, revendo memórias que foram como um soco no meu estômago, mas que antes me faziam feliz. Eu já entendi o recado. Era isso que eu precisava vivenciar, e no momento certo.

Sou grata pela experiência que tive ao rever minhas memórias de momentos felizes. Mas agora é hora de deixá-las ir embora.

E na memória ficará apenas aquele cavalo castanho, sem sela, com sua crina ao vento. Livre, correndo junto aos seus companheiros ao fim do dia.

Livre. Livre. Livre.

Porque foi isso que eu sempre sonhei desde criança. E eu tenho a certeza que em algum lugar, haverá um cavalo em liberdade sendo grato por eu ter mudado de rota.

obs.: este post não é uma crítica à Medicina Veterinária. É apenas um desabafo sobre o caminho que eu estava trilhando dentro dessa profissão. <3

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11 comentários leave one →

  1. Luane

    Ler esse relato me fez admirá-la ainda mais como alguém fiel a si mesma, Camile. É preciso muita coragem para fazer o que você fez. Emocionada e inspirada pela sua história!

    Beijos,

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  2. Karen

    Camile,
    Esse texto me fez refletir MUITO sobre mim mesma. Sobre o rumo que estou tomando na minha vida.
    Atualmente, estou no último ano de Marketing. Assim como você, quando entrei na faculdade eu AMAVA esse mundo que é a publicidade, instigar o público a comprar/desejar/querer um produto X. Eu achava essa a melhor profissão e não conseguia me ver fazendo outrã coisa. Porém, desde que decidi levar uma vida mais simples, desde que conheci o minimalismo e me aprofundei nesse mundo, comecei a enxergar essa profissão com outros olhos. Aprendemos durante todo curso a persuadir pessoas, a despertar nelas o consumismo, a desejarem aquilo que não precisam e honestamente, não quero isso. Hoje vejo que não sou mais a mesma e que todos esses princípios vão contra o que acredito.
    É óbvio que há áreas no Marketing que não são voltadas somente para isso (consumismo e necessidade de ter a qualquer custo), mas me sinto mal de saber que isso é o que eu queria para mim.
    Não me vejo mais em uma sala, criando produtos desenfreados, “sem pensar” no impacto negativo que isso pode causar.
    Enfim, hoje procuro achar alternativas para fazer após a conclusão da graduação. Não sei como vai ser e nem como serei até lá. Só espero que eu continue evoluindo e usando o que aprendi para um bem maior.

    Desculpa o textão e os possíveis erros de português (já passa da meia noite e o sono se faz presente).

    Sou imensamente grata por ter compartilhado esse pedaço da sua vida com a gente. Sempre comento no seu Facebook que você é uma inspiração e é mesmo!

    Grande beijo,
    Novamente, obrigada!

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  3. Eu li esse texto pela primeira vez e concordei com tudo nele, daí fui fazer o que mais ando fazendo nessas férias, que é um limpa no meu guarda-roupa e me deparei com um vestido que usei pela primeira vez quando eu devia ter uns 15 anos (e que curiosamente ainda cabe em mim, não cresci quase nada nesses quase 7 anos), e eu achava que não dava a mínima bola pra ele até experimentar há uns minutos atrás. Confesso que eu ainda acho ele lindo por ser um vestido de festa e tal, mas nada funcional por ser branco, mas verdade seja dita, hoje, com quase 22 anos, eu não usaria esse vestido de novo. Mas me apeguei emocionalmente à ele. Ao mesmo tempo que me senti super estranha dentro dele, senti uma nostalgia, o típico “vestido de princesa”, e com muito custo, desapeguei.

    “Esta foi uma parte de mim, que hoje vejo que não é mais.”

    Como sempre, um texto inspirador de várias maneiras <3

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  4. Minha querida é tão bom ler-te. É enriquecedor passar por aqui e ler as tuas maravilhosas e sábias palavras!
    Que bom que descobri o teu blog. Parabéns por este post espectacular! Obrigada por partilhares tanto!
    Beijinho enorme***

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  5. Mais um texto inspirador. Tenho que ser sincera ao dizer que meus olhos se encheram de lágrimas ao pensar nos animais nesse sistema de exploração. Você foi muito corajosa ao largar tudo e mudar de carreira assim e também agora em não se reconhecer mais naquelas memórias e se desapegar delas. Em breve estou planejando passar por uma limpeza nas minhas tralhas emocionais, espero estar pronta para desapegar completamente delas. Beijos

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  6. Beatriz

    Esse post me tocou muito. Parece q estava conversando com uma “irmã mais velha”, sendo que ela estava me ajudando a refletir minha vida. Grata pelo blog.

    Com carinho, Bia.

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  7. Solange

    Nossa que relato interessante , de certa forma me identifiquei … nunca fiz Veterinária , mas amo os animais e procuro preserva-los dentro das minhas condições . Com 22 anos fiz enfermagem , cuidei de muitas pessoas e trabalhei na área por 5 anos , até que um dia me fiz a seguinte reflexão , não quero mais trabalhar com o “lado triste ” das pessoas e mudei radicalmente para o ramo Imobiliário , o qual trabalho até hoje , sou muito feliz e estou fazendo faculdade de pedagogia . Assim como você eu escolhi ser feliz . Beijão e Parabéns pela transparência e atitude

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  8. Tatiana

    Simplesmente adoro ler as suas postagens!! De uma sensibilidade e serenidade que admiro muito!! Não é para qualquer um ter essa força de mudar de caminho, principalmente quando nossa familia acha que “se vc estudou isso, tem q viver disso a vida toda!”. Muita gratidão por conhecer seus textos e ter a oportunidade de lê-los.

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