Meditação, Yoga

Crônica sobre Meditação

11/06/2016

Crônica sobre Meditação | Camile Carvalho

Às vezes, tudo o que preciso é sentar-me quieta, coluna ereta e apenas respirar. Respirar sem contar o tempo. Deixar que pensamentos apareçam do nada e tentem me tirar da concentração em que me encontro. Mas, sou persistente, então apenas os observo, e com um semi sorriso no canto da boca, deixo que eles sigam seu caminho tranquilamente, para uma outra mente talvez.

Permaneço sentada em postura de lótus. Na verdade, semi lótus, já que ainda não tenho alongamento suficiente pra manter meus dois pés sobre as coxas sem que fiquem roxos. Mas nada disso importa, já que o foco, aqui, é a mente. Outro pensamento surge, como se fosse o próximo da fila. Sabe aquela fila sem estratégia, como quando pessoas aleatórias vão chegando e se amontoando por ordem de chegada? Pois é.

E então os pensamentos ficam ali, aguardando seu momento de cumprirem suas missões: de me tirar do estado meditativo. Espremidos, tentando ver o que está acontecendo no palco principal, os pensamentos parecem até disputar quem vai chegar primeiro na cena principal, quem vai ser o próximo. Às vezes o vigia dá uma cochilada e dois entram juntos no palco, mas na maioria das vezes, mal um está se retirando quando outro, sem ligação nenhuma com o anterior, já se projeta querendo chamar atenção.

Os mais comuns são aqueles que me trazem lembranças de tarefas inacabadas, ainda mais quando os prazos estão se esgotando. Há também aqueles que estão tão ligados ao futuro, que me causa uma ansiedade tremenda. Um outro muito famoso é o que provoca a sensação de que algo não vai dar certo. Ora, como não vai dar certo se ainda nem tentei? O descarto imediatamente, e ele sai triste, cabisbaixo de sua apresentação, quando em seguida entra aquele valente, que lê um texto decorado sobre contas a pagar, compras a fazer e tantas outras coisas que não são possíveis de serem resolvidas naquele instante. Apenas sorrio novamente e deixo que ele siga seu caminho, sem ao menos lhe dar atenção.

E então, os pensamentos que estão nos bastidores, começam a desanimar. – “Afinal, qual graça tem de nos apresentarmos no palco da mente de um indivíduo que sequer nos dá papo?”

E então alguns começam a desistir da apresentação. Uns ficam ali, sentados e desmotivados com o queixo apoiado na mão. Outros ainda insistem, mas percebem que eles tinham mesmo razão. “Ela não está nem aí. Parece distraída, com outras coisas na mente.

Eles começam então a conversar entre si, se entretendo com seus assuntos próprios nos bastidores. Já não querem mais surgir no palco principal. Perdeu a graça. E quando perde a graça, é quando tudo acontece. Enfim, percebo que não sou meus pensamentos. Que eles estão ali, fazem parte da minha história – isso é inegável – mas que não têm poder de me comandar. Eu é que estou no comando.

E não preciso de muito para ter este insight. Basta sentar-me com a coluna ereta em um local tranquilo, manter os queixos paralelos ao chão e prestar atenção na respiração. Pra ajudar, posso até contar a respiração: 4 tempos inspirando e 8 expirando. E assim, todos aqueles pensamentos que antes disputavam o palco principal da minha mente de forma confusa e caótica, começam a ser disciplinados.

Claro, eu reconheço, eles têm lá sua importância, mas apenas quando são requisitados. E, a cada dia de prática de meditação, cada vez que fecho meus olhos e levo meu foco à respiração, percebo que eu tenho pensamentos e tenho emoções, mas eles não me possuem.

Sejam bem-vindos, queridos pensamentos. Eu juro que amo todos vocês! Puxem uma cadeira e aproveitem o café quentinho, mas venham de forma mais organizada, um de cada vez, e em fila… Mas quando eu precisar meditar, já sabem, né? Fiquem quietinhos, pra não atrapalharem o meu silêncio interior.

Gratidão, meditação, por me fazer uma pessoa melhor a cada dia. Por me fazer perceber que ter um momento pra mim é importante. E por me mostrar que cessar os barulhos externos é fácil, difícil mesmo é lidar com o ruído interno. Mas com prática e persistência chegaremos lá.

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13 comentários leave one →

  1. Muito bonitinho! haha Namaste! 🙂

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  2. Raienny

    Lindo texto <3 <3 <3
    Acho o segredo é saber equilibrar persistência com indulgência para os dias não tão bons da meditação..
    Cada dia é um dia diferente,
    Cada meditação é uma meditação diferente!
    _/\_

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    • Exatamente! Com a meditação constante vamos aprendendo a lidar com essa montanha russa que é nossa mente e com as variações que ocorrem a cada dia.

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  3. Nana

    Que lindo!! É bem assim mesmo, hahaha.
    Eu ainda to começando com o hábito de meditar, tem horas que surgem tantos pensamentos que sinto desespero, mas aos poucos vou superando isso!
    Tenha uma ótima semana :*

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    • É assim mesmo, os pensamentos vêm como uma enxurrada, mas às vezes eles ficam mais quietinhos… com a prática vamos aprendendo a nos distanciar deles e apenas observá-los, de longe…

      Tenha um lindo dia!

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  4. Que lindo texto!!
    Tão bom ler as tuas palavras!
    Beijinho querida**

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  5. Olha, eu acho que tenho uma mente muito muito caótica. haha Não consigo calá-la e raramente me distancio dos meus pensamentos, como você descreveu tão bem. Já li muito sobre, já pratico há bastante tempo, mas ainda é difícil pra mim. Você tem alguma dica?

    Beijos!

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    • Oi Leilii!

      Que bom te ver por aqui! 😀

      Olha, a meditação é uma prática, não é fácil nos distanciarmos dos pensamentos de uma hora pra outra, por isso devemos meditar diariamente, estabelecendo uma rotina. A dica que tenho é começar meditando prestando atenção nos sons do ambiente, cada um deles, até o mais longe que conseguir escutar e depois “fechar” o ouvido externo e passar a prestar atenção apenas nos pensamentos. Isso ajuda bastante!

      Beijos!

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  6. Belíssimo texto….Parabéns!

    Nietzsche diz em alemão: es denkt in mir, que significa algo pensa em mim.

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  7. Fernanda Rocha

    Essa crônica faz tempo que foi publicada mas isso mostra o quanto deixo numa pastinha guardada todas os e-mails sobre novas postagens daqui. Ando atrasada mas não desisto nunca de comentar aqui, de seguir suas reflexões e postagens. O mesmo com a meditação, faz tempo que tento incluir na minha rotina, sem sucesso até então, mas não desisto, será ainda nesse ano que vou conseguir. Um dos pontos fundamentais sobre a meditação, apesar de eu não ter prática nenhuma, acredito ser a persistência dela virar hábito e depois de aperfeiçoarmos nosso momento com nós mesmos. Eu sei que não vou desistir… por uma vida mais plena.

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