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O que é Yoga?

07/04/2016

O que é Yoga? | Camile Carvalho

Em seu livro A Luz da Yoga, o mestre B. K. S. Iyengar explica de forma clara e simples o que vem a ser Yoga. Quando me perguntam o que é Yoga, paro e penso por alguns segundos. Será que é possível definir tudo isso que abrange o Yoga? Como explicar a alguém que nunca praticou que Yoga não é (apenas) fazer posturas, se contorcer e colocar os pés na cabeça? Que você pode praticar Yoga apenas com respiração e meditação? E o mais curioso, que você pode ser um grande Yogue sem nunca ter tido aulas.

Isso tudo é porque Yoga é um estilo de vida, e sua prática vai muito além do tapetinho, tendo alguns estágios que, se praticados de forma sincera e dedicada, transforma completamente nossas vidas.

Vamos à definição por Iyengar:

“A palavra “ioga” deriva da raiz sânscrita “yuj“, que significa jungir, atar, reunir, ligar, dirigir e concentrar a atenção sobre, usar a aplicar. Significa também união ou comunhão. (…) significa a disciplina do intelecto, da mente, das emoções, da vontade, que é o que a ioga pressupõe; significa uma atitude da alma que permite a alguém encarar a vida em todos os seus aspectos com equanimidade.” – pág. 17

Yoga e a escrita

Podemos perceber alguns pontos nesta citação. O primeiro ponto é em relação à escrita da palavra. Muitos têm dúvidas de como se escreve, se usa-se Yoga ou Ioga, e como comentei no vídeo do Youtube, a palavra vem do sânscrito. Yoga (pronunciando-se yôga) é na transliteração do original, e na língua portuguesa escreve-se Ioga (pronunciando-se ióga). As duas formas de se escrever estão corretas, depende da preferência de cada um.

Yoga x Religião

Yoga não é uma religião se observarmos as estruturas religiosas atuais, mas se formos no significado de ambas as palavras, podemos perceber algumas semelhanças. Como o radical da palavra Yoga é Yuj, que significa ligar, união, comunhão, podemos perceber que o indivíduo que a pratica tem uma meta de religar-se a algo. Da mesma forma, a origem da palavra religião é religare, que também significa esta união, uma re-ligação com algo ou alguém.

No entanto, a filosofia yogue nos torna mais conscientes sobre quem somos no universo, seja ele criado por uma energia concentrada que gerou o Big Bang, seja ele criado por um Deus onipotente. É por isso que, independentemente de crenças ou ausência delas, o sistema yogue nos reconecta com a existência e nos ensinando a ouvir nossa voz interna, desenvolvendo o autoconhecimento para transformar nossas vidas. Yoga não é uma religião, pode ser praticada por religiosos e ateus, mas tem este princípio de reconhecer-se como parte de algo muito maior.

O que é Yoga? | Camile Carvalho

Yoga e a co-responsabilidade

Partindo do princípio que houve um Big Bang e que toda a existência de todos os universos provém da mesma energia, há que se concordar que todos somos feitos do mesmo princípio. Árvores, pedras, mares, animais e seres humanos. O mesmo ocorre quando se tem uma crença em um Deus criador de toda a existência. Dependendo da estrutura religiosa, podemos nos ver como criação (filhos de Deus) ou tendo o mesmo princípio do criador (parte de Deus).

Nesse aspecto, as hierarquias acabam se reduzindo e nos colocamos no mesmo patamar por exemplo, de toda a vida em nosso planeta. Isso faz com que pensemos melhor sobre a preservação, respeito e responsabilidade sobre outros seres vivos, sejam eles animados ou inanimados. Yoga é, portanto, esse estado de comunhão com a totalidade, a percepção de que não somos este corpo material, mas sim parte de algo muito maior, pela qual somos também responsáveis e co-criadores.

Yoga e disciplina

Como dito no trecho do livro acima, Yoga é a disciplina do intelecto, da mente, das emoções, da vontade… Isso significa que em vez de pensar no Yoga como um sistema limitador, que nos controla e regula, deve-se ver pelo ponto de vista do autoconhecimento e de auto-observação de como agimos e reagimos em diferentes situações. Quando estamos vivendo no modo da paixão, por exemplo (Rajas), somos impulsivos, atropelamos tudo e acabamos por tomar decisões precipitadas. Já o contrário, quando vivemos no modo da ignorância (Tamas), encaramos nossas vidas com letargia, preguiça e desânimo, o que também é prejudicial.

Para vivermos com a equanimidade, que é o que o Yoga nos oferece, devemos manter nosso equilíbrio de mente, fala, ações e emoções. É o tão conhecido caminho do meio, muito falado também no budismo. Este modo, portanto, é o modo da Sabedoria (Sattva), que nos permite viver de forma plena e feliz.

Como já diz o ditado, “uma lâmpada não tremula num lugar onde não sopra o vento“. Da mesma forma é o yogue, que encontrando essa quietude de sua mente, sentidos e emoções, encontra dentro de si mesmo sua autorrealização e felicidade plena. Afinal, quando vivemos de forma automática, somos incapazes de voltarmos para dentro. Dessa forma, a prática de Yoga nos ajuda a acalmar a mente agitada através das posturas, meditação, exercícios de respiração e observação do nosso dia-a-dia, para que possamos ouvir aquela voz que vem lá de dentro, mas que quase nunca temos tempo de escutá-la.

🌸

O livro citado nesse artigo é A Luz da Ioga, de B.K.S. Iyengar (edição condensada). Cada post que eu fizer pra debater sobre a filosofia do yoga, vou usar algum livro de apoio pra servir também de indicação a vocês.

Iyengar, B. K. S. A luz da ioga. São Paulo: Círculo do livro, 1980.

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Yoga

Mile Responde: há riscos de praticar yoga em casa?

24/03/2016

Perguntas e respostas: há riscos de praticar yoga sozinha?

Hoje estou iniciando uma nova fase aqui no blog, cada vez mais voltado a ajudar aos outros e principalmente, relacionado à prática de yoga, e pra dar início a essa nova era, abri uma sessão de perguntas e respostas para que vocês tirem suas dúvidas sobre a prática de yoga, meditação e assuntos relacionados.

A primeira pergunta que vou responder é da Grazyelle Fonseca, que deixou o comentário no meu vídeo do YouTube. Como é um questionamento muito comum, resolvi dar prioridade e explicar alguns pontos importantes sobre Yoga. Vamos lá?

“Ainda não pratico yoga, mas tenho me concentrado bastante nas coisas e busco sempre harmonizar minhas energias. E, pelo o que entendo razoavelmente (inclusive, o seu vídeo ajudou a esclarecer muito), os pilares da yoga servem justamente pra isso. Você havia indicado o hatha-yoga para iniciantes. Mas, tenho insegurança de praticar os asanas sozinha porque quando há uma pessoa instruindo existe uma troca maior de conhecimento e atenção à postura. Há riscos de praticar sozinha? Quais seriam? Quando você começou a praticar também foi sozinha?” – Grazyelle Fonseca

Esta é uma pergunta muito comum que sempre recebo e é muito importante primeiro esclarecer alguns pontos, como: o que é, para vocês, praticar yoga.

Uma prática de yoga pode ser feita de muitas maneiras. Podemos apenas nos sentar no tapetinho e meditar, trazendo a concentração para a respiração e acalmando a mente. Podemos também praticar Pranayamas (respirações específicas), assim como podemos fazer as posturas (asanas). E, é em relação às posturas que devemos prestar mais atenção com a forma que vamos fazer. Portanto, a resposta para a pergunta se há riscos de praticar em casa é sim e não. Depende do jeito que você for praticar. Vou explicar melhor.

Dentre as diversas posturas que o yoga nos oferece, temos uma série que vai trabalhar com nosso alongamento, outras com torções, flexões para frente, para trás, posturas de equilíbrio e invertidas. Se você nunca praticou Yoga e vai começar em casa, é indicado que comece por algumas posturas mais simples, como aquelas que alongam o corpo, que trabalham a permanência, algumas flexões e equilíbrios. O risco começa quando vamos tentar torcer além do que estamos acostumados e fazer invertidas.

Cuidados durante a prática de yoga sem acompanhamento

  • Se você tem pressão alta, evite posturas que levem a cabeça abaixo do coração.
  • Se você não tem costume de flexionar a coluna para trás, evite posturas que forcem, principalmente se tiver algum problema de coluna. Prefira flexões para frente, já que somos mais acostumados no nosso dia-a-dia.
  • Não faça invertidas se você está começando a praticar agora. Ficar de cabeça pra baixo pode ser empolgante, mas prefira começar depois de um bom tempo de prática e acompanhado de um professor para corrigir o alinhamento e a pressão sobre os braços e pescoço.
  • E o principal “mantra” do yoga: se sentiu alguma dor, volte. Yoga não é feito para sentirmos dores, mas sim, contentamento e felicidade nas nossas práticas.

Ouça seu corpo. Respeite seus limites

Se você ouvir bem seu corpo e respeitar seus limites, sua prática será segura. Começar pela Hatha Yoga é uma ótima forma de entrar neste mundo encantado, e sentir os benefícios da prática. Não se cobre demais, não tente atingir um objetivo, apenas respire lenta e profundamente durante a prática, mantenha a mente focada e tente observar as sensações do corpo e as emoções que surgem. Não há riscos em começar uma prática em casa, contanto que respeitemos nossos limites. Tem um post aqui no blog com indicações de livros para iniciantes.

Quanto à pergunta se eu comecei em casa, não, eu nunca havia praticado Yoga até me inscrever numa aula na faculdade. Ali foi meu primeiro contato, com uma instrutora e a partir dali levei a prática para minha casa, nos dias em que eu me sentia agitada, triste ou ansiosa. Na época (2003) via o Yoga apenas como uma terapia, um remédio que eu poderia fazer quando precisasse. No entanto, conheço professores que iniciaram suas práticas em casa e depois foram para um estúdio praticar com um professor. Cada um tem seu jeito de iniciar, é como um chamado.

Minha dica é pesquisar locais que oferecem aulas perto de casa e assistir uma aula experimental. Converse com os professores, tire as dúvidas, pois uma prática em casa é bem diferente de uma prática guiada.

Se você tem vontade de praticar em casa, siga seu coração e comece agora. Os riscos estão apenas quando não ouvimos nosso corpo e ultrapassamos nossos limites.

Tem uma pergunta sobre Yoga? Deixe aqui nos comentários ou escreva para yoga@camilecarvalho.com

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Yoga

Shiva e a transformação pessoal

06/03/2016

shiva-maha

Na tradição Hindu, temos uma trindade conhecida como Trimurti (sânscrito: tri=três, murti=forma). Esta trindade é composta por Brahma (o criador), Vishnu (o mantenedor) e Shiva (o destruidor), e hoje vou explicar um pouco sobre o arquétipo de Shiva e sua qualidade de transformação.

Quando falamos que Shiva é o destruidor, muitos observam um aspecto negativo, como se a destruição significasse algo ruim para nossas vidas. No entanto, quando algo novo precisa chegar em nossas vidas, antigos padrões de pensamentos e atitudes precisam ser abandonados, para que novas energias possam chegar.

Shiva representa o desapego do ego pelo que está imutável. É o desapego de termos a certeza de que sabemos o que é bom para nós. O desapego de não confiar que o universo sempre nos guiará para um caminho correto. Às vezes nos vemos presos em estruturas sólidas de relacionamentos, empregos, estilo de vida, mas sem nos darmos conta de que aquilo não é exatamente o que nos faz bem. Insistimos em nos ancorarmos a uma vida mais ou menos, uma vida que nos suga a energia e que nem sempre estamos felizes. Uma ilusão.

Shiva representa o preparo do terreno. Vem com todos os instrumentos necessários para remover as ervas daninhas do nosso solo. remexe a terra das nossas certezas, e quando pensamos que acabou, ainda afofa mais, pra que o solo respire e obtenha os nutrientes necessários para um novo patamar de vida. E só depois, de causar um caos e uma transformação, é que a energia criadora nos presenteia com algo novo.

Não há como mudar sem abandonar antigos padrões. Não há como querer algo novo se estamos entulhados com o que não nos serve mais. Como encher um copo com água renovada, se mantemos nosso copo cheio? É necessário nos esvaziarmos antes para recebermos as energias que precisamos naquele momento. E, caso não tenhamos a força suficiente para jogar o conteúdo do copo fora, Shiva nos ajuda derrubando o copo da mesa.

E é nessa energia que estamos no momento. Hindus do mundo inteiro comemoram o Shivaratri, ou o festival de Shiva (tradução literal de “noite de Shiva”), que ocorre na 14ª lua nova (em 2016, no dia 7 de março). É uma noite escura, na qual sofremos menos influência da lua, um ótimo momento para intensificarmos quaisquer práticas como o yoga, a meditação e orações. Shivaratri ocorre em uma única noite, mas uma semana antes e uma depois podemos aproveitar as influências deste momento tão especial.

É o momento de chacoalharmos nossas árvores da vida, deixando que os frutos podres caiam por si mesmos. É momento de analisarmos o que fica e o que vai. De fazer novos planos e projetos para o futuro, de mudarmos a rota caso seja necessária. Não tenham medo de mudar de estrada, de repensar seus hábitos, de começar um novo estilo de vida mais adequado aos seus princípios. Desapegue do que não faz mais parte de você, do que te faz sofrer. Tenho certeza que boas e novas energias chegarão.

Om Namah Shivaya!

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